http://www.cpflcultura.com.br/site/2011/08/16/dialogos-com-zygmunt-bauman/
Forte abraço!

Tenho o hábito de buscar na internet os autores que mais gosto para ver o que eles estão produzindo. O mesmo acontece com minhas revistas prediletas. Escolhi essa reportagem por ser de extrema importância. Sempre escuto a pergunta, tanto de amigos, quanto de pessoas que me abordam, sobre o momento certo de procurar uma psicoterapia. Não existe o momento certo. Qualquer pessoa, em qualquer momento, pode se engajar na busca de melhorar sua vida, de repensar escolhas, de conhecer a si mesma. Entretanto existem momentos críticos. Geralmente quando vivemos esses períodos não temos dúvida que precisamos de ajuda, mas muito frequentemente falta ânimo ou coragem para procurar um profissional qualificado. Insistir é preciso. Acredite ... apenas quando olhamos para nossa vida é que podemos melhorá-la. Siga em frente. Procure ajuda. "A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente." Soren Kierkergaard filósofo e teólogo dinamarquês 1813-1855 Artigo: É hora de procurar ajuda? Revista Mente e Cérebro edição 216 - Janeiro 2011 | ||||||
Grande parte das pessoas enfrenta, em algum momento da vida, transtornos de saúde mental que podem ser tratados; é o caso da depressão e do estresse, mas a falta de informação e o preconceito ainda fazem com que adultos e crianças sofram sozinhos em vez de procurar um profissional qualificado | ||||||
| por Robert Epstein | ||||||
Vinte e três milhões. Este é o número de brasileiros que necessitam de acompanhamento na área da saúde mental. Desse total, pelo menos 5 milhões sofrem com transtornos graves e persistentes, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nesse universo encontram-se crianças e adultos que sofrem de patologias como depressão, transtornos de ansiedade, distúrbios de atenção e hiperatividade e dependência de álcool e drogas. Aproximadamente 80% das pessoas que sofrem com esses transtornos não recebem nenhum tipo de tratamento. Mas a situação não é prerrogativa do Brasil. Ainda de acordo com a OMS, um em cada quatro americanos passa por um transtorno psiquiátrico diagnosticável em algum momento da vida. Exageros à parte, no decorrer de nossa existência muitas vezes nos perguntamos se somos mentalmente saudáveis e se não estaria na hora de buscar ajuda profissional. A preocupação faz sentido: de fato, quase metade da população do planeta apresenta algum tipo de transtorno durante a vida. Infelizmente, porém, em cerca de dois terços dos casos os problemas comportamentais e emocionais jamais são diagnosticados e acompanhados, embora muitos deles possam ser tratados de maneira eficaz. Mais de 80% das pessoas com depressão grave, por exemplo, são capazes de se beneficiar significativamente da combinação de medicação e terapia. O preconceito, porém, ainda é um empecilho para a busca de auxílio especializado. Não raro, ouve-se até mesmo de pessoas razoavelmente bem informadas que “psicoterapia é coisa para louco”. A postura defensiva pode se mostrar de várias maneiras, como pela desqualificação dos profissionais ou de si próprio. Para muitos prevalece, por exemplo, a ameaça de que “o psicoterapeuta saberá mais sobre mim do que eu mesmo; descobrirá segredos dos quais nem suspeito”. Pode também surgir a fantasia onipotente de que “ninguém pode me ajudar”. Ou ainda o pensamento persecutório referenciado na opinião alheia: “O que os outros vão pensar se souberem que vou a um psicólogo?”. Qualquer que seja a forma como se apresente, a resistência não aparece por acaso: em geral, é inerente à própria patologia e tem a ver com o funcionamento psíquico da pessoa. E, infelizmente, às vezes persiste por muito tempo, até que o paciente decida buscar ajuda. | ||||||


“Nos mitos e contos de fada, como no sonho, a alma fala de si mesma e os arquétipos se revelam em sua combinação natural, como formação, transformação, eterna recriação do sentido eterno"
Carl G. Jung
Uma obra de arte literária é composta por imagens da fantasia onde a “voz” do autor se encontra refletida. Como vimos anteriormente, essa voz é e não é a sua, embora haja sempre a marca da subjetividade. O conceito de polifonia como uma multiplicidade de vozes no romance de Dostoiévski será considerado, mas não como Bakhtin apresenta, embora acredite que a consciência coletiva esteja sempre presente na obra. A imagem arquetípica é uma manifestação do arquétipo, como síntese que traz a marca da subjetividade e da cultura. Por isso cabe pensar a polifonia como vozes de um discurso que é ao mesmo tempo pessoal (subjetivo) e coletivo (universal e cultural).
Saindo do monoteísmo psicológico e permitindo um olhar politeísta do romance, vamos nos deparar com a possibilidade de Crime e Castigo ser o universo onde diversos deuses atuam e interagem. Semelhante a um sonho, em que todos os personagens do livro personificam aspectos da psique do protagonista. Um politeísmo psíquico onde os Deuses habitam e criam uma trama energética que nos envolve por todo o romance. Um exercício imaginativo onde alguns temas serão ampliados por paralelos mitológicos a fim de amplificar, desliteralizar, mitologizar.
3.1. O Titanismo
“Matei, simplesmente; matei só para mim, para mim apenas...”
(Raskólhnikov)
Pouco se sabe sobre a Titanomaquia, o poema épico sobre a guerra entre Zeus e os Titãs, que se perdeu ao longo da história junto com dois terços da trilogia de Ésquilo sobre Prometeu. Entretanto sabe-se por estudiosos da mitologia como Kerényi e Nilsson, citados constantemente por Pedraza em seu artigo, “A loucura lunar – Amor Titânico”, que os titãs desde os tempos mais remotos eram deuses muito violentos, selvagens e não sujeitos a lei alguma. Não tinham ritos nem cultos, ficando a margem da vida cultural grega. Na Teogonia, Zeus “o de olhar amplo” com seu raio lança os Titãs para o Tártaro, que é na morada de Hades o mais profundo dos planos, para onde os piores criminosos são enviados. O Tártaro não tem chão, sendo um local para onde vão os piores criminosos. É a permanência no caos, caracterizando psicologicamente o sofrimento psíquico caótico e sombrio de Raskólnikov após o assassinato.
O componente titânico para Pedraza é um dos três fortes componentes da natureza humana, junto com a histeria e o Puer que são para ele arquétipos. Nesse sentido, mesmo não podendo ser chamado de arquétipo, o titanismo é uma parte integrante da natureza humana ligada a irreflexão.
“Trata-se de uma energia desproporcional e desenfreada, que se manifesta de diversas formas: na religião, na política, nos negócios, na tecnologia, nas comunicações, na arte. O excesso dos titãs, como foi percebido pelos gregos, pode ser observado em ação no titanismo de hoje” (Pedraza, 2002:13)
Essa idéia do titanismo nos aproxima do conteúdo psicopático que existe em todo ser humano, talvez por isso o romance de Dostoiévski seja tão atual e imortal. Ele aponta um conteúdo universal que existe na psique humana: um conteúdo psicopático, uma área psíquica onde não há imagens, não existe possibilidade de reflexão e por isso não temos sentimentos para avaliar ou traduzir. É o vazio que quando predomina torna a vida de todos nós um mero ato mimético esvaziado de sentido, uma lacuna que é preenchida pelo excesso.
“Kerényi nos ajuda a diagnosticar a natureza titânica e sua retórica: ‘Hybristés e atasthalíe são palavras de difícil tradução, embora seu significado seja claro... Elas disignam a insolência agressiva e sem limites que caracteriza aos titãs’. Numa outra passagem, escreve: Hybris e atasthalíe orgulho desmedido e violência” (Ibid.:13)
Insolência agressiva, orgulho desmedido, ausência de limites, caos, etc.; a adolescência é marcada pelos jargões titânicos e Raskólhnikov se encaixaria muito bem na associação do elemento titânico com o Puer, que em sua viagem celestial exibe seu próprio excesso, sua ausência de limites e sua destrutividade.
A civilização ocidental, segundo Pedraza, está se tornando cada vez mais titânica e se fosse possível atribuir ao titanismo uma configuração arquetípica essa seria o “arquétipo do excesso”. Mas Pedraza considera isso delicado, visto que ao lado do excesso titânico está sua vacuidade, o vazio sem formas, a ausência de significado, a carência de imagens da retórica titânica. “Eu matei, simplesmente; matei só para mim...” diz Raskólhnikov a Sônia. O titanismo que inundava a psique de Raskólhnikov é apresentado por Dostoiévski logo no início da trama, no primeiro sonho de Raskólhnikov, momentos antes do protagonista tomar a decisão de levar adiante seu plano criminoso. O sonho aponta uma invasão do ego por conteúdos titânicos, pela violência e selvageria do cocheiro com sua égua, violência desmedida e excesso, que marcou toda cena e que se configura no momento do assassinato da velha por Raskólhnikov. O cocheiro do sonho após matar de forma bárbara a égua justifica-se com os olhos injetados de sangue e apenas diz: “Era minha!”.
3.2 Puer
“Tu és tudo para nós, toda a nossa ilusão, toda a nossa esperança...”
(Pulkhiéria para Raskólhnikov)
O puer é o arquétipo da juventude eterna que aparece em vários mitos gregos. Lembro agora do mito de Adônis, nascido da relação entre Mirra e seu pai, o rei Téias. Apaixonamento esse provocado por Afrodite enraivecida de ciúme por Mirra, uma mortal, ter sido proclamada a mulher mais linda da Terra. Mirra está prestes a morrer perseguida por seu pai armado com um sabre, quando Afrodite a transforma numa árvore. O sabre atinge o tronco partindo-o ao meio e nasce Adônis. Afrodite se apaixona pela criança e pede a Perséfone que cuide do menino
Raskólnikov é um jovem de feições delicadas “um bonito rapaz, com uns magníficos olhos escuros, o cabelo castanho, de estatura acima da mediana, magro, de muito boa figura”[ ...]“mas era tal o maldoso desprezo que se tinha já acumulado no espírito do rapaz que, apesar de toda a sua delicadeza, às vezes muito juvenil, aquilo que menos o preocupava era o pobre vestuário com que ia pelas ruas”. (Dostoiévski, 2004:5).
Sua mãe, Pulkhiéria Raskólhnikova o idolatrava, sendo ele a razão de sua vida. Uma ligação tão forte entre os dois que a simples menção a ela lhe causava forte impacto. Em determinado momento, Raskólhnikov recebe uma carta de sua mãe pelas mãos de Anastácia, imediatamente quer ficar sozinho e pede que moça o deixe só. Não se sentia bem, estava trêmulo e levando a carta aos lábios, beija-a. Fica um tempo contemplando o endereço numa espécie de adoração e receio. Inicia a leitura:
“Tu bem sabes como eu te quero; tu és o nosso filho único, para mim, e para Dúnia (irmã); tu és tudo para nós, toda a nossa ilusão, toda a nossa esperança... Adeus, ou melhor... Até a vista! Um abraço apertado, muito apertado, e muitos beijos; a tua até a morte, Pulkhiéria Raskólhnikova.” (Dostoiévski, 2004:41)
Ele termina a leitura com o rosto arrasado de lágrimas, pálido, um tremor nervoso agitando-lhe o corpo. Na dinâmica psíquica mãe-filho, Rodka (como sua mãe o chama) personifica uma imagem arquetípica do Puer, do eterno jovem preso ao mundo materno. Raskólhnikov é um jovem alheio a objetividade da vida prática, vive no mundo interno dele, perdido em seus pensamentos, sua mente vagueia sem rumo, sonolento, indisciplinado, febril, não se importa com o que veste e nem com o dinheiro que chega a suas mãos. A displicência de um Puer que vive como se tudo fosse se resolver magicamente, que ainda não aceita o mundo do pai, não só porque está preso pelo complexo materno, mas por estar em hybris, negando sua condição mortal, na medida em que luta pra ser extraordinário e ganhar a imortalidade histórica de Napoleão. A lei paterna implica em limites, em renúncias e Rodka não quer reconhecer-se ordinário, mortal, temporal.
O senex é a contraparte do Puer, formando o par arquetípico Puer-Senex. Onde um é idéia o outro é concretização. Uma relação onde um não deve existir sem o outro, sob o risco de paralisia psíquica. O velho (senex) precisa do novo (puer) para se renovar. O senex, o mundo do pai, é quem traz limite e ordem para o puer. No caso de Raskólhnikov o pai estava morto. O pai que é fundamental na estruturação do Ego, ele é a lei e quem dá o limite entre o que é permitido e o proibido. Quem personifica a lei na história é Porfíri Pietróvitch, o policial, o homem que quer levar Raskólhnikov para o tribunal, mas não consegue obter a confissão.
Na história Raskólhnikov é órfão de pai, mas ele aparece em sonho, pelo relógio que o filho entregou para a agiota, nas citações da mãe e ainda mais amplamente, “Deus estava morto”. Aceitar o mundo do pai é sair dos braços eternos da mãe e isso Raskólhnikov só consegue após o assassinato. Devemos lembrar que quando ele procura Sônia para se confessar, primeiro abandona a mãe e a irmã. Abandonar a mãe e a irmã é o que permite a Raskólhnikov reconhecer o amor por outra mulher e aceitar as leis do mundo indo para a prisão. Como sabemos o mundo dos tribunais remete ao mundo do pai.
3.3 Demeter/Hécate
“Ela se alimenta da vida alheia, é má; ainda não há muito tempo que mordeu de raiva um dedo a Lisavieta; por um pouco quase lho arrancava fora.”
(Raskólhnikov)
Demeter é uma das representações da Grande Mãe na mitologia grega, que corresponde a Ceres para os romanos. Filha de Cronos e Réia é a deusa da agricultura, da terra cultivada, das colheitas e das estações do ano. Tem sua filha Core raptada por Hades (Deus Infernal) e desesperada sai do Olimpo e começa a vagar por nove dias e nove noites sem comer, beber ou se banhar tamanho o seu sofrimento. No décimo dia encontra Hécate representada como uma deusa anciã, personificando o lado sombrio de Deméter que a ajuda em sua busca. O mito continua, mas o que importa nesse momento é perceber a bipolaridade do arquétipo materno. Hécate é uma deusa ctônica, está vinculada as trevas, ao lado escuro, as qualidades maternas inconscientes, o feminino que habita nas profundezas. Quando Demeter se associa a Hécate encontra sua face subterrânea, seu outro lado, onde a mãe amorosa, zelosa, nutridora, se torna mãe enraivecida e destrutiva, uma deusa da morte, uma bruxa.
No Hino a Deméter, Homero nos mostra a face terrível da deusa quando se torna uma “deusa da morte” impedindo a germinação das sementes, como nos conta:
“Pela filha de cinta delgada afligindo-se em coitas.
E terrível um ano ordenou sobre a terra nutrícia
Crudelíssimo aos homens; o solo nenhuma semente
Levantava, Deméter da bela coroa a escondia..."
(Gramacho,2006:78)
Como a mãe devoradora que impede o filho (semente) de crescer, Alíona Ivânovna, velha agiota, personifica esse lado terrível da grande mãe na polarização psíquica de Raskólhnikov e ele acaba atuando projetivamente matando-a, numa tentativa inconsciente de separação do mundo materno. Ela tinha a posse do relógio do pai de Raskólhnikov, o que nos leva a crer um masculino aprisionado no reino das mães. Essa vivência do mundo do pai era difícil para um puer preso a sua mãe, mas era almejada. Como disse o protagonista de Dostoiévski: “Trago uma coisa para empenhar! - e puxou de um velho relógio de prata, de algibeira. - hei de resgatá-lo depois, porque era do meu pai. (Dostoiévski, 2004: 8)
Diante de Raskólhnikov a usurária, dona de um “olhar inquisitorial”, “velha e má" e que “se alimenta da vida alheia”, assume em seu imaginário traços de bruxa que se alimentava de seus “bens” (os objetos do empréstimo), consequentemente de sua vida. Para resgatá-los, era necessário que a “bruxa” que aprisionava sua alma morresse. Entretanto seu plano falha. Matando a “mãe devoradora” ele mata junto a imagem de uma mãe boa, a mansa e dócil Lisavieta, a irmã mais nova da velha usurária, que soube mais tarde ter costurado os botões de sua camisa.
Entendo Crime e Castigo como uma luta pelo direito de existir, pelo sentido da existência. Desde que sua noiva faleceu, falecimento comemorado por sua mãe (Demeter não quer o casamento), Raskólhnikov entra em um estado caótico. Sua tentativa de emancipação fracassou e ele tenta se libertar da mãe, projetivamente, numa atuação criminosa. O arquétipo é bipolar, no arquétipo materno coexiste a mãe boa e má personificadas na história respectivamente por Alíona (velha bruxa) e Pulkhiéria (mãe de Raskólhnikov). Quanto mais afastado da consciência mais a imagem assume uma forma mitológica. No caso Raskólhnikov não podia aceitar a mãe como má, negava seus sentimentos ruins, sua raiva por essa mãe que o aprisionante que o queria só para si e o transformava na razão de sua vida. Assim os conteúdos negativos foram depositados na velha que assumiu aos olhos do rapaz ares demoníacos e sombrios. Exterminando a velha ele estaria liberto. Entretanto não foi assim que aconteceu, pois o matricídio conclama a presença das Eríneas.
3.4 Orestes e as Eríneas
“Não são simples fantasmas que me atemorizam;
Vejo-as muito bem! Elas estão ali!
São as cadelas rábicas de minha mãe!”
(in Oréstia, 1360)
Como determinou o oráculo de Apolo, Orestes deveria vingar a morte de seu pai Agamêmnon que fora assassinado por sua mãe Clitemnestra. Ele planeja seu crime e o executa, sendo perseguido a partir desse momento pelas Eríneas, as Fúrias romanas, divindades aladas que possuíam asas de morcego e cabelo de serpente. Em Ésquilo são em número três: Alecto, eternamente encolerizada, persegue os criminosos com tochas acesas, Megera, que não deixa o criminoso esquecer os seus crimes cometidos gritando-os em seus ouvidos e Tisífone que açoita os culpados e enlouquece-os.
Orestes assim que comete o assassinato narra o aparecimento das três entidades vingadoras do matricídio:
“Ai! Ai de mim! Criadas! Já as vejo ali,
Como se fossem Górgonas, com roupas negras,
envoltas em muitas serpentes sinuosas!
Não posso mais ficar aqui! Não posso mais!”(Ibid:1355)
Na tragédia As Coéforas, Orestes é perseguido pelas Erínias, sendo o único que as vê: “Não podes vê-las, mas as vejo perseguindo-me e não tenho o direito de ficar aqui!”. Não tem como Raskólhnikov fugir de sua consciência. O coro explica a causa da alucinação de Orestes: “Há muito sangue ainda fresco em sua tuas mãos; vem dele as alucinações de tua mente.” O ataque das Eríneas representa uma desordem psicológica ligada ao horror do crime.
Raskólhnikov não era um psicopata, havia lei internalizada. Uma lei que por mais que ele quisesse negar existia, a lei moral. Vernant comenta
Jung aborda a relação entre Obra de arte e Psicologia Analítica numa palestra proferida em Zurique, na Sociedade de Língua e Literatura Alemã, no ano de 1922 e em 1930 com o prefácio “Psicologia e Poesia”. Num dos poucos escritos sobre o tema, Jung comenta a relação da psicologia com a obra de arte poética afirmando que embora a arte seja proveniente de causas psicológicas, como toda atividade humana, apenas o processo criativo é relevante para a psicologia. . Em momento algum, Jung nega a interação recíproca que existe entre obra de arte e homem criador, mas deixa claro que não se explicam mutuamente. Obra de arte e neurose não estão no mesmo patamar.
“A psicologia específica do artista constitui um assunto coletivo e não pessoal. Isso, porque a arte, nele é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento. Em última instância, o que nele quer não é ele mesmo enquanto homem pessoal, mas a obra de arte. Enquanto pessoa tem seus humores, caprichos e metas egoístas; mas enquanto artista ele é, no mais alto sentido, “homem”, e homem coletivo, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade.”
Em 1930, Jung sugere dois tipos de processos criativos: o psicológico e o visionário. O primeiro é um processo de criação consciente, onde a o autor participa ativamente da construção de sua obra e dirige conscientemente o processo. As obras originadas desse processo teriam pouca importância para o psicólogo já que seus conteúdos se movimentam dentro dos limites da consciência humana. Uma “fúria divina” marca o segundo processo de criação, denominado por Jung de visionário, onde o autor da obra artística estaria sob a influência energética de um complexo autônomo, definido por ele como “uma porção independente da psique que leva uma vida própria fora da hierarquia da consciência”
Toda constelação de complexos implica num estado perturbado de consciência. Quando um complexo é ativado, podemos sentir imediatamente alterações de memória, no ritmo cardíaco, sudorese, distúrbios nos intestinos, podemos perder o equilíbrio, sentir tonteiras, ter atos falhos, enfim, a consciência perde seu domínio por alguns instantes. Há uma estranheza em nossas, palavras, atitudes e sensações somáticas. O nosso corpo não funciona da mesma maneira, o ritmo muda. Um corpo diferente se apresenta revelado pela atuação do complexo, como se tivesse um corpo próprio. O Ego não é mais senhor em sua própria casa. Por isso, Jung diz que o complexo forma uma pequena personalidade, apresentando uma espécie de corpo próprio na condição de uma personalidade parcial. O fenômeno da dissociação psíquica acontece tanto nas neuroses quanto nas psicoses e não necessariamente deve ser encarada como patologia. A psique tem a possibilidade de dissociação, sendo a unidade da consciência uma mera ilusão.
No caso do complexo autônomo a consciência encontra-se passiva e por isso a sensação de estranheza quando estamos sobre o seu efeito e podemos sentir que não somos nós atuando naquele momento. Em alguns processos criativos essa sensação aparece em primeiro plano. Em relatos de psicografia isso é muito presente e o médium sente “um outro” que está presente e atuando naquele momento, tanto que o termo que relaciona-se ao fenômeno mediúnico é “dar passividade”. No processo criativo visionário de Jung, o artista estaria numa posição semelhante a do “médium”, entretanto os conteúdos são seus, do seu próprio psiquismo, o que marcaria não um fenômeno mediúnico, mas anímico, da própria alma do autor da obra.
Como exemplo desse processo criativo visionário, podemos olhar para o próprio processo criativo de Jung que originou o “Sete Sermões dos Mortos”, como ele nos conta em “Memórias, Sonhos e Reflexões”, num capítulo intitulado “Confronto com o Inconsciente”.
Após a ruptura com Freud, começou a anotar suas fantasias e seguiu-se um período intenso de sonhos e visões, onde Jung entrou em contato com um grande fluxo de imagens interiores. As fantasias e as condições psíquicas sob as quais apareciam eram anotadas por ele. Temia perder o autocontrole e tornar-se presa fácil ao fascínio de tais imagens. Numa tentativa de assimilação, pela vivência de tais conteúdos, apesar de seus temores, experimentou o que mais tarde denominou Imaginação Ativa, onde os complexos aparecem personificados. Em sua fantasia surgiu em primeiro lugar a imagem de uma cratera e sentiu como se estivesse no país dos mortos. Ao pé de um muro alto rochoso apareceram duas figuras: Elías e Salomé que afirmavam estar ligados por toda eternidade e junto com eles tinha uma serpente negra. Em outro momento, a partir de Elias, Filemon lhe aparece para mais adiante aparecer outro personagem, que Jung denominou ka. Redigindo a respeito dessas experiências, colocou em sua mente a pergunta sobre o que estava fazendo e resposta lhe veio como uma voz interior: “O que fazes é arte”.
Foi em 1916 que sentiu um impulso incoercível de exprimir e formular os “Septem Sermones ad Mortuos”, assinando com o pseudônimo Basílides. Falando dessa experiência, Jung disse que tudo começou com uma espécie de inquietação semelhante ao que ele descreve como processo visionário de criação. Assim descreve esse momento:
“As palavras puseram-se então a fluir espontaneamente e em três noites a coisa estava escrita. Mal eu começara a escrever, toda a corte de espíritos desvaneceu-se. A fantasmagoria terminara. A sala tornou-se tranqüila, a atmosfera pura, até a noite seguinte. A tensão voltou menos intensa e tudo ocorreu da mesma forma. Isto foi em
Como vimos, o processo visionário de criação sugere um estado em que a consciência se encontra rebaixada e por isso os conteúdos do inconsciente encontram caminho livre para sua expressão. O inconsciente se impõe e a consciência fica distante do desenvolvimento da obra. O rebaixamento do nível de consciência consiste no que Janet denominou “abaissement du niveau mental”, onde o tônus da consciência se desfaz ou reduz, ao ponto de não exercer controle sobre formações psíquicas que irrompem na consciência. A imagem que brota do processo criativo tem um valor simbólico, já que ela é mais do que aparenta ser, sendo a melhor expressão de algo que ainda é desconhecido e cuja origem não deve ser procurada no inconsciente pessoal do autor.
Há então uma espécie de dualidade, onde por um lado o artista é um ser humano com uma vida pessoal e por outro é um processo criativo impessoal. Essa impessoalidade da arte estaria no fato de o processo artístico visionário ser originado de uma espécie de possessão, uma força que domina o artista e o faz mero instrumento de materialização da arte.
Como Jung não vai se preocupar com o significado da obra de arte e sim do processo criativo, a questão do sentido torna-se secundária em seus textos a esse respeito. Mas o que a arte realmente significa? Jung se faz essa pergunta e responde:
“Talvez a arte nada “signifique” e não tenha nenhum “sentido”, pelo menos não como falamos aqui sobre sentido. Talvez ela seja como a natureza que simplesmente é e não “significa”. Será que “significação” é necessariamente mais do que simples interpretação, que “imagina mais do que nela existe” por causa da necessidade de um intelecto faminto de sentido? Poder-se-ia dizer que arte é beleza e nisso ela se realiza e se basta por si mesma. Ela não precisa ter sentido. A pergunta do sentido nada tem a ver com a arte.”
Jung diz para não nos importarmos com o conteúdo da obra, mas com o processo criativo. Entretanto a reflexão sobre o conteúdo está no centro da questão entre o psicológico e o visionário, já que não existe a possibilidade de uma manifestação arquetípica pura porque o arquétipo em si mesmo é irrepresentável. Devido a isso, toda obra criativa possui algo de pessoal e suprapessoal e o processo de criação acontece na oscilação entre os dois pólos descritos por Jung: psicológico e o visionário. Estar a consciência totalmente passiva seria considerar a “morte do autor” que seria a ausência em um romance da personalidade daquele que escreveu.
Luigi Pareyson, em “Os Problemas da Estética” aborda a questão da pessoalidade e impessoalidade da arte. Considerando as duas posições ele propõe uma terceira dizendo:
“Certamente a arte contém o espírito do tempo, a voz de um povo, a expressão de um grupo, mas isso tudo contém refratado na singularíssima espiritualidade de uma pessoa porque o homem nada pensa, cumpre ou faz, a não ser pessoalmente. No mundo humano, qualquer manifestação coletiva é sempre ao mesmo tempo pessoal”
Apesar de Pareyson não se referir a conteúdos do inconsciente coletivo, sua posição é relevante para pensar que tudo que se manifesta no homem e por ele se expressa traz a marca da pessoalidade. O fato da obra ter vontade independente, uma interna finalidade, uma teleologia que oriente seu desenvolvimento, onde o artista obedece um impulso interno que o orienta na consecução da obra, não quer dizer que o artista perca a iniciativa, ficando reduzido a mero expectador. Haverá sempre uma dialética entre autor e obra.
“O artista não é nunca tão criador como quando, na sua atividade, se recorta a independência da forma, como quando a obra lhe impõe a sua própria vontade, no ato de ser produzida por ele, porque então torna-se evidente que ele, verdadeiramente, “criou”, isto é, produziu alguma coisa de vivo e autônomo, que se destaca dele e está em condição de viver por conta própria. O sinal mais evidente da criatividade é o fato de a iniciativa do artista culminar na autonomia da obra”
Continuando citando Pareyson por ser importante para o desenvolvimento do raciocínio, ele diz mais adiante:
“Na verdadeira arte, a inspiração nunca é tão determinante que reduza a atividade do artista a numa obediência, e o trabalho é tão custoso que suprima toda espontaneidade; e o que caracteriza o processo artístico é a adequação entre espera e descoberta, entre tentativa e êxito, quer esta adequação seja lenta e difícil, quer fácil e imediata”
Nesse sentido a voz do autor é e não a sua. Inspiração é uma idéia antiga, utilizada para descrever o estado em que os poetas e outros artistas se encontram no processo criativo. Mesmo no senso comum, quando precisamos nos referir a momentos de criação ou de insights dizemos “estar inspirado”. Inspiração nos aponta para um estado não comum onde há uma estranheza, uma surpresa, uma invenção, algo novo surge e por isso dizemo-nos “inspirados”. Gustavo Barcellos em seu livro “Vôos e Raizes” define inspiração como algo que vai além do controle do poeta, “diríamos do controle do ego”, como algo que vem de “fora” e esse “fora” é chamado de inconsciente. Como disse, a voz do autor é e não é a sua.
Ana Cristina Abdo Curi / anac333@gmail.com